segunda-feira, 29 de junho de 2009

O especial prefácio para o meu livro

Para conhecimento de todos que acompanham meu blog, e para os que ainda não possuem meu livro, deixo para vocês com imenso orgulho, o prefácio que apresenta "A Verdadeira História das Capitanias Hereditárias", escrito pelo historiador Hernâni Donato, membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo - IHGSP e da Academia Paulista de Letras.
Hernâni é um consagrado autor brasileiro com grande número de livros publicados. O mais recente tem como título “Pateo do Collegio – Coração de São Paulo”, em comemoração ao aniversário da fundação da cidade de São Paulo, que completou 454 anos em 25 de janeiro de 2008.



PREFÁCIO

“AS CAPITANIAS HEREDITÁRIAS E SEU PAPEL HISTÓRICO” DO PROFESSOR JOSÉ BAPTISTA DE CARVALHO

No “O Jardim de Epicuro” Anatole France discutiu o ser a História ciência ou arte. Deixou-nos habilitados a concluir que pode ser isto ou aquilo, dependendo de quem a interpreta. Tolstoi, no epílogo de “Guerra e Paz”, invocando ventos, nuvens e vontade, convida o leitor a reconhecer a intenção do historiador antes de estabelecer o próprio juízo quanto a ter o vento trazido a nuvem ou haver sido esta empurrada por aquela.
Fato é, também, que nenhum outro fazer harmoniza arte e ciência se o autor-pesquisador-escritor não reunir, com isenção, os elementos e desenvolve-los com atraente saber dizer.
Nada fácil satisfazer a tudo isso quando o desafio levantado é o de focalizar A Verdadeira História das Capitanias Hereditárias. Não só, pois a promessa do autor vai além: focaliza o “processo de ocupação territorial e defesa do Brasil”. Para maior rigor, J.B. Carvalho adotou o velho critério francês: “História se faz com documentos, sem estes ela não existe como ciência” embora inspire crônicas de muita arte.
Apesar dos limites a que se restringiu e da amplitude do assunto, o autor fez o que não alcançou a quase totalidade dos donatários: entrega ao leitor mais do que o prometido. A partir das Capitanias evolui por uma larga e bem enraizada História Geral do Brasil dos Primeiros Tempos.
A fim de bem fundamentar essa excursão recuou a fita de largada para o momento da fundação da Dinastia de Avis, embarcando-nos - a nós leitores - nas caravelas que fizeram “a expansão marítima de Portugal”. Quis dizer que sem uma e outra não haveria o Brasil. E esse recuo, essa viagem, essa afirmativa, aumentam sobremaneira o lucro-prazer da leitura.
O alargar de veredas estende-se por toda a obra. Serve de exemplo o capítulo Tordesilhas. Por mais que o leitor comum pense saber a respeito, encontrará novidades.
Pois impressiona o nível das pesquisas a que se entregou o autor. A cada afirmação segue-se excursão ao comprobatório: nomes, datas, circunstâncias. No resultante, há no livro vários livros. Logo na introdução participamos de palestra sobre o amanhecer do país. Lemos o que não se lê em muitos livros, que a escravidão foi “contingência inevitável dentro das condições que cercaram a colonização”. Chama a atenção para a singularidade do isolamento dos núcleos litorâneos importando na fragilidade do sistema defensivo, razão, também e não menor da criação do sistema de Capitanias. Aí, como em outras situações, J. B. Carvalho revela-se professor: nenhum evento acontece isoladamente, é sempre elo de uma cadeia, aquela que compõe a História.
Aplicado pesquisador, J. B. Carvalho faz sua parte preparando o campo para investida esclarecedora. De tal modo que o livro evolui de lição simples para vir a ser todo um curso. Começa do começo: as Ordenações do Reino, código definidor das sesmarias e das capitanias. Mostra a validade desse instituto a ponto de o mesmo ecoar no direito político moderno, justifica convincentemente a soma de poderes concedidos aos beneficiados. As afirmações saltam dos documentos, não admitem reservas. Os direitos e os deveres de capitães e de sesmeiros constam da entrega feita ao Caramuru.
Sem perder o fio condutor do assunto J.B. Carvalho desborda o seu foco para aspectos que parecendo distintos reforçam e aclaram a motivação central. A sociedade típica das capitanias, estrangeiros no litoral, piratas e corsários, a expansão territorial para o norte e para o sul, a invasão francesa no Maranhão, a conquista da Amazônia são bons exemplos desse paralelismo enriquecedor. Não cessam as abrangências.
E, sendo nisso surpreendente, Carvalho elenca os esforços, as tentativas reais de proteger e desenvolver o Brasil antes da concessão de capitanias. Houve autorizações especiais, contratos de exploração de madeira, autorizações para comércio com “os da Terra”, arrendamento a potentados como Noronha, Marchioni, Morelli, “liberdade de comércio e isenção de impostos a flamengos e holandeses, a burgualeses (gente de Burgos), a galeras dos venezianos”..., “uma verdadeira rede de comércio internacional”, a primeira em que o Brasil se envolveu. Nada resultando a contento, chegou-se à decisão: houvesse capitanias.
Enfim, não se quer dizer que o professor José Baptista de Carvalho tenha exaurido o assunto. Isso não existe no campo da História. Mas com certeza foi mais longe, mais fundo em comparação ao que se escreveu, enquanto generalidade, sobre o tema. Já é bastante.
Em seis capítulos robustecidos por generosos aportes, trata dos “índios do Brasil antes de sua descoberta”. Pois, como dominar o tema sem conhecer os personagens vivenciadores do episódio. Com os índios ciceroneia o leitor pelo que foi, o que fez e como fez o engenho baiano “Sergipe do Conde”. Desvela o viver e o produzir na economia e na sociedade nortista dos séculos XVI e XVII. Essa preocupação com o homem das Capitanias, ao tempo em que elas foram o Brasil, está insistentemente presente na obra, tanto nas dissertações do autor quanto nas transcrições com que robustece o seu discurso.
Aceitando que o evoluir de um povo ocorre ao longo de circunstâncias e eventos igualmente origem e efeito, certamente aproveitando aí a longa experiência dos anos de cátedra, incorpora à rigidez do relato documental o prazer ilustrativo do que rotulou Leitura Complementar. E o texto, tão simples e individual, se faz evento coletivo com participação simplesmente consagradora.
Soube escolher e dosar. Fernão Cardim sobe ao pódio e em pouco mais de dez linhas descreve os engenhos do século XVI, conjuntos esses de relevante importância no evoluir e no decair das Capitanias. Volta o professor Carvalho e nos segreda que a introdução do terceiro cilindro fez subir a produção do açúcar. E passa a palavra ao frei Vicente do Salvador que lembra – e de certo modo adverte – que tal inovação no Brasil causou fome em Angola. Pois o povo desta colônia comia da farinha de mandioca enviada desde a costa brasileira por senhores de engenho que, à vista dos novos resultados, concentraram-se na cana e no açúcar, descuidando da macaxeira.
Conhecer em detalhes o que foi a política do degredo, a atividade econômica, social e guerreira dos engenhos, a importância real do Brasil no conjunto do império português, assim como de outros assuntos não só completam o tema-título mas acenam para novas e gratificantes lições. Antonio Matoso nos conduz, por exemplo, pelas rotas abertas por naves lusitanas praticamente ao redor do mundo, facilitando a nossa compreensão dos feitos do Gama, de Cabral e de outros. Oliveira Marques escrevendo a “História de Portugal” justifica a importância do Brasil colonial “que deu a Portugal os meios de se conservar independente”. Capistrano nos intimiza com quem foi e com o que fez Martim Afonso explicando-nos assim a escolha real desse capitão. E nos contempla com antologia na qual figuram ainda Mandulia, frei Luís de Sousa, Mircea Buescu, Andreoni e outras sumidades.
Igualmente merece registro o fato de o livro observar que mesmo as capitanias de fraco resultado “cumpriram a função que lhes foi determinada pelas circunstâncias históricas, ou seja, a ocupação territorial e a defesa do Brasil”. Ganhou reconhecimento especial o lembrete de que muito do que os donatários aceitaram e fizeram foi por estarem eles tocados pela jaculatória de Manuel da Nóbrega: “Esta terra é uma empresa nossa” e pelo espírito motivador do sonoro canto V do poema “Invenção do mar” de Gerardo Mello Mourão que, já no primeiro verso, faz honra aos “doze capitães das Capitanias”: “deram tudo à terra: nela enterraram seus cabedais/ e muitos a vida”. Costuma-se criticar os capitães. Carvalho os enaltece. Também por isso a sua História é verdadeira.
O professor José Baptista de Carvalho, desenvolvendo com arte um tema histórico, contentou Anatole; com isenção no relatar e largueza no documentar, atendeu a Tolstoi. E a muitos outros receituários de bem pesquisar e transmitir. De certo, contentará o exigente Leitor. Merece.

Um comentário:

Thiago Santos de Moraes disse...

Como posso adquirir o livro?